O brigadeiro da meia noite

O que o brigadeiro tem a ver com qualidade de tempo junto?

Comumente a mãe que trabalha fora sofre com o tempo que passa longe dos filhos. Que não tem tempo para dar a atenção que gostaria. Comumente a mãe que trabalha em casa (home office ou do lar) sofre com o tempo mal gasto em casa no que diz respeito ao cuidado com os filhos. Estamos sempre correndo. Seja na rua, seja em casa. Limpando, organizando, trabalhando, whatsapp, mercado, família. Resolvemos o problema de todo mundo, e não resolvemos os nossos próprios dilemas.

Dá trabalho ser dona de casa, mulher, mãe, esposa, empresária. Os filhos nascem e pensamos que alguma hora tudo vai se ajustar. Essa hora nunca chega. Essa hora não vai chegar sozinha.

Saí do cargo de assalariada quando o Theo nasceu. Comecei a trabalhar em casa e custei a encaixar minha rotina de empresária com o imenso tempo livre que ele tinha ao estar em casa. Theo foi para a escolinha apenas perto de completar 3 anos. Naquela época eu criei uma rotina (por escrito que ficava colada na geladeira), tinha encomendas semanais de bolos e mais bolos, cupcakes, doces etc. Em algum momento tudo parecia estar ajustado. Mas vira e mexe me pegava aos berros pela falta de organização do resto da casa, das roupas pra lavar, da louça na pia, de fazer unha ou pintar o cabelo. Sempre tem alguma coisa fora do lugar.

Minha Nossa necessidade de estar sempre beirando a perfeição nos condiciona a ser completamente imperfeitas. Hoje vivo uma rotina com 2 filhos, casa, marido, trabalho dentro de casa e estou sempre ligada no 220. Durante um tempo (no auge da crise) não tinha trabalho em vista e ainda assim vivia “sem tempo” para nada.

Essa semana o Theo me pediu brigadeiro. Poderia comprar pronto e matar a vontade dele, porque comida a gente não nega. Mas ele queria brigadeiro de panela, feito em casa, com direito a formato de bolinha e granulado. Era um grito de socorro. O dia passou e não tive ‘tempo’ de fazer para ele.

No dia seguinte, novamente : “mamãe, e nosso brigadeiro?”. Alguma coisa dentro de mim pulsou. Estava na rua, foi uma semana de inúmeras reuniões. Chegamos em casa passavam de 23h30 e fui para a cozinha fazer brigadeiro caseiro. Ele deveria estar dormindo, mas a vida não espera.

Fizemos brigadeiro de panela, enrolamos as bolinhas, passamos granulado e enchemos a cara de chocolate até 1h30 da manhã numa terça feira qualquer. Isso não me faz “mais mãe” nem “menos mãe”. Isso me faz mãe. A vida me deu um tapa de realidade aquele dia, que não sei explicar de onde veio.

Nosso tempo nunca tem parada. Mas aquele brigadeiro da meia noite me fez repensar sobre o tempo que tenho dedicado em casa aos meus filhos. A mãe que trabalha fora chega cansada, e vai reclamar do chefe, do serviço, dos colegas de trabalho, reclamar da bagunça de brinquedo no chão. Mas quantas vezes a gente chega e senta para ler um livro junto?

A mãe que trabalha em casa (como eu) muitas vezes não consegue dividir o tempo e acaba tendo todo o tempo do mundo vazio. Parei de reclamar, por hoje. Nenhum trabalho do mundo vai suprir a dor de olharmos para trás e vermos que eles cresceram rápido demais. Eles não crescem rápido demais, nós é que estamos dedicando tempo errado.

Por mais que eu precise de 40h por dia para trabalhar, preciso separar um tempo de qualidade só deles. Aquele dia, do brigadeiro da meia noite deixei muito trabalho parado. Mas as horas que passamos nos lambuzando de brigadeiro é que serão meu legado. Eu trabalho para estar com eles. De nada adianta trabalhar para estar com eles se eu não tiver tempo de desfrutar disso.

Nas próximas semanas vou trazer de volta as tecnicas de gestão de tempo que eu usava tempos atrás, afim de me renovar e dar uma nova idéia para as mamães que me leêm.

Por isso, mãe. Não se culpe pelo tempo perdido na rua, trabalho, faculdade ou qualquer que seja. Ao invés disso, simplesmente pare o mundo. Pare o mundo para aqueles que são o seu mundo. Estou aprendendo a cada dia. E sempre que acredito que já sei tudo, é quando percebo que não sei de nada.

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